√īmicron: com maior risco de infectar vacinados, subvariante BA.2 pode retardar decl√≠nio de casos

Especialistas acreditam que sua disseminação pode causar um pico mais alto de infecções em locais que ainda não atingiram o √°pice da onda iniciada pela BA.1

Por João Paulo Pereira em 03/02/2022 às 07:42:07
A subvariante BA.2 da Ômicron é mais transmissível do que a mais comum, BA.1 - Foto: Pixabay

A subvariante BA.2 da Ômicron é mais transmissível do que a mais comum, BA.1 - Foto: Pixabay

A BA.2, uma subvariante da Ômicron, acendeu o sinal de alerta na comunidade cient√≠fica e nas autoridades de sa√ļde. Isso porque ela parece ser mais transmiss√≠vel que a BA.1, nome da versão original da Ômicron, e tem maior capacidade de infectar pessoas vacinadas, de acordo com um recente estudo dinamarqu√™s.

Devido a essas caracter√≠sticas, especialistas acreditam que sua disseminação pode causar um pico mais alto de infecções em locais que ainda não atingiram o √°pice da onda iniciada pela BA.1 e retardar o decl√≠nio de casos nos pa√≠ses que j√° atingiram o pico.

"A BA.2 se mostra ainda mais infectante e escapa das vacinas mais do que a Ômicron original. Seu avanço deve arrastar um pouco a onda que ach√°vamos que iria cair tão rapidamente quanto subiu. Mas não vai haver um novo pico", diz o médico geneticista Salmo Raskin, diretor do Laboratório Genetika, de Curitiba.

Na terça-feira, Boris Pavlin, da Equipe de Resposta à Covid-19 da Organização Mundial da Sa√ļde, admitiu que a BA.2 est√° rapidamente substituindo a BA.1 e se tornando a cepa dominante, mas ressaltou que é improv√°vel que ela cause um impacto "substancial".

"Olhando para outros pa√≠ses onde o BA.2 est√° ultrapassando [a BA.1] agora, não estamos vendo nenhum aumento maior nas hospitalizações do que o esperado", explicou Pavlin em coletiva de imprensa.

Até o dia 30 de janeiro, a BA.2 representavam menos de 4% de todas as sequ√™ncias de Ômicron dispon√≠veis no principal banco de dados global de v√≠rus. Mas ela foi identificada em 57 pa√≠ses e em alguns deles, como a Dinamarca, j√° é dominante.

A BA.2 tem 32 das mesmas mutações da BA.1, mas também tem 28 que são diferentes. Alguns pesquisadores afirmam que as duas linhagens são tão diferentes que a BA.2 deveria receber um nome próprio e ser classificada como uma nova variante de preocupação e não como uma subvariante da Ômicron.

"Ela é mais diferente da BA.1 do que a Alfa (primeira nova variante de preocupação) é diferente da sequ√™ncia de Wuhan (cepa que deu origem à pandemia) . Isso significa que h√° uma chance de ela não ser mais considerada um subtipo da Ômicron e sim uma nova variante de preocupação, com uma denominação própria", explica Raskin.

A Organização Mundial da Sa√ļde (OMS), respons√°vel por essa classificação, ainda não deu ind√≠cios de que isso possa acontecer.

Evid√™ncias mostram que a BA.2 não parece ser mais grave do que a versão original da Ômicron, chamada BA.1. Entretanto, um estudo feito na Dinamarca mostra que a subvariante é mais transmiss√≠vel e tem maior capacidade de infectar pessoas vacinadas, do que a BA.1. A nova versão também tem o potencial de substituir a BA.1 globalmente.

"Conclu√≠mos que a Ômicron BA.2 é inerentemente substancialmente mais transmiss√≠vel do que BA.1, e que também possui propriedades imunoevasivas que reduzem ainda mais o efeito protetor da vacinação contra infecções", escreveram os pesquisadores.

Embora seja considerada uma sublinhagem da Ômicron, a BA.2 tem in√ļmeras mutações diferentes da BA.1, incluindo na prote√≠na Spike, utilizada pela SARS-CoV-2 para entrar nas células humanas e principal alvo das vacinas atuais. Outra caracter√≠stica interessante do subtipo é que ela não tem a mutação presente na versão original que possibilita identificar a Ômicron por meio do teste RT-PCR. Isso significa que só é poss√≠vel saber se a infecção foi causada pela BA.2 por meio do sequenciamento genético do v√≠rus.

Dados da Dinamarca, onde o sistema de rastreamento genômico é extraordinariamente robusto, indicam que a BA.2 pode ser 1,5 vezes mais transmiss√≠vel do que BA.1. Em apenas seis semanas, a BA.2 se tornou a cepa dominante no pa√≠s, superando a BA.1. Outro estudo, feito pela Ag√™ncia de Segurança do Reino Unido (UKHSA), também encontrou maior transmissibilidade para BA.2 em comparação com BA.1.

As vacinas continuam a fornecer proteção contra as diferentes linhagens da Ômicron, em especial contra casos graves. No entanto, o estudo dinamarqu√™s mostrou que a BA.2 foi relativamente melhor do que BA.1 em infectar pessoas vacinadas, incluindo aquelas que j√° receberam a dose de reforço, indicando maiores "propriedades imunoevasivas" da subvariante.

Por outro lado, o trabalho mostrou que pessoas vacinadas que foram infectadas pela BA.2 transmitem menos do que aquelas imunizadas que foram contaminadas pela BA.1. Além disso, de forma geral, indiv√≠duos com duas ou tr√™s doses eram menos propensos a se infectar e transmitir qualquer subvariante, em comparação com aqueles não vacinados.

De acordo com o Ministério da Sa√ļde, "até o momento, foram notificados dois casos da linhagem BA.2 da variante ômicron, no estado de São Paulo. As datas de coleta das amostras são de dezembro de 2021 e janeiro de 2022". Como o pa√≠s sequencia pouco - apenas 0,5% dos casos positivos -, é prov√°vel que esse n√ļmero seja maior.

Além do Brasil, a presença da sub-linhagem j√° foi confirmada em 57 pa√≠ses. Segundo Dados da OMS, a BA.2 j√° est√° se tornando dominante nas Filipinas, Nepal, Catar, √ćndia e Dinamarca. Em outros pa√≠ses como Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, sua frequ√™ncia est√° aumentando rapidamente.

V√≠rus estão em constante mutação, por isso, o surgimento de sub-linhagens são comuns na evolução viral. A variante delta, por exemplo, possui 200 subvariantes diferentes. O fato curioso sobre a Ômicron é que tr√™s linhagens distintas - além da BA.1 e da BA.2, h√° também a BA.3 - surgiram simultaneamente. Assim como a versão original, a origem da BA.2 ainda é um mistério para a ci√™nciaa.

Uma das hipóteses para explicar o surgimento de tr√™s subtipos da Ômicron é que um √ļnico paciente, com uma infecção crônica, tenha permitido que o v√≠rus sofresse mutações constantemente por muitos meses. Outras hipóteses apontam para Ômicron emergindo de infecções animais. Entretanto, o fato de existirem tr√™s linhagens distintas torna isso menos prov√°vel, j√° que precisaria haver tr√™s eventos separados de transmissão do v√≠rus de animais para humanos, todos acontecendo na mesma época e no mesmo lugar

Os v√≠rus estão em constante mutação e elas são aleatórias e imprevis√≠veis. Quanto maior a circulação, maior o risco de aparecerem novas variantes mais transmiss√≠veis, mais resistentes às vacinas e potencialmente mais letais.

À medida que a Ômicron continua a se espalhar, autoridades de sa√ļde acreditam que o surgimento de uma variante mais transmiss√≠vel é apenas uma questão de tempo. do que o omicron.

"A próxima variante de preocupação ser√° mais transmiss√≠vel porque ter√° que ultrapassar a que est√° circulando atualmente", disse Maria Van Kerkhove, l√≠der técnica da Covid-19 da OMS. "A grande questão é se as variantes futuras serão ou não mais ou menos severas", conclui.

Da√≠ o apelo de médicos e pesquisadores para que as pessoas se vacinem e mantenham os cuidados de proteção individual, como uso de m√°scara, distanciamento e higienização das mãos.

Fonte: Agência O Globo

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