Justiça manda soltar sobrinha que levou tio morto à ag√™ncia banc√°ria para obter empr√©stimo

Samu atestou que o homem de 68 anos estava morto havia pelo menos duas horas

Por João Paulo Pereira em 02/05/2024 às 14:21:29
Érika de Souza Vieira Nunes na delegacia de Bangu, para onde foi levada após levar cadáver de idoso a banco - Foto: TV Globo/Reprodução

Érika de Souza Vieira Nunes na delegacia de Bangu, para onde foi levada após levar cadáver de idoso a banco - Foto: TV Globo/Reprodução

A Justiça do Rio determinou que Érika Souza Vieira Nunes, de 42 anos, sobrinha que levou o tio j√° morto a uma ag√™ncia banc√°ria para tentar obter um empréstimo, seja solta. Ela foi presa em flagrante por vilip√™ndio de cad√°ver e furto mediante fraude. Na quarta-feira (1¬į), ela foi denunciada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) pelos crimes de tentativa de estelionato e vilip√™ndio de cad√°ver.

Segundo o g1, na decisão, a juíza Luciana Mocco, titular da 2¬™ Vara Criminal de Bangu, atendeu a um pedido da defesa da sobrinha e revogou a prisão preventiva.

Na última terça-feira, a Polícia Civil do Rio finalizou a primeira etapa da investigação do caso, que apurava a prisão em flagrante. Érika, porém, passou também a ser investigada por homicídio culposo, quando não h√° intenção de matar.

Relembre
O crime ocorreu no dia 16 de abril deste ano, em Bangu, na Zona Oeste. Na ação penal, o MP manifestou-se contr√°rio a um pedido da defesa da denunciada de liberdade provisória. Érika foi presa em flagrante após o crime e teve a prisão convertida em preventiva durante audi√™ncia de custódia.

A denúncia destaca que embora o empréstimo tenha sido contratado pelo idoso Paulo Roberto Braga, quando este ainda se encontrava vivo, o saque de R$ 17.975,38 não poderia mais ser realizado, visto que no momento da prisão em flagrante da denunciada, a vítima j√° tinha falecido. A ação penal destaca ainda que Érika, mediante a fraude, tentou se apropriar de valores que não seriam mais utilizados em favor de seu tio, o que ocasionaria, por fim, prejuízo à instituição financeira que concedeu o empréstimo, uma vez que não seria mais quitado pelo devedor, j√° falecido.

"O crime não se consumou por circunstâncias alheias à vontade da denunciada, uma vez que funcion√°rios do banco, verificando que o idoso Paulo Roberto Braga não estava bem, apresentando aspecto p√°lido e sem condições de assinar documento, acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urg√™ncia - SAMU, sendo, posteriormente, constatado o óbito do mesmo, fato esse que impediu o saque dos valores pretendidos pela ré", descreve trecho da denúncia.

A Promotoria também destaca à Justiça o "desprezo e desrespeito" pelo idoso ao lev√°-lo ao banco morto para realizar o saque do dinheiro. "A denunciada consciente e voluntariamente, vilipendiou o cad√°ver de Paulo Roberto Braga, seu tio e de quem era cuidadora, ao lev√°-lo à referida ag√™ncia banc√°ria e l√° ter permanecido, mesmo após a sua morte, para fins de realizar o saque da ordem de pagamento supramencionada, demonstrando, assim, total desprezo e desrespeito para com o mesmo", narra trecho da denúncia.

A Promotoria de Justiça chama a atenção para o fato de que Paulo teria recebido alta na véspera dos fatos, após internação ocasionada por pneumonia, "sendo certo que estava bastante debilitado, o que facilmente se verifica, notadamente, diante do depoimento prestado pelo médico da Unidade de Pronto Atendimento - UPA (...) respons√°vel pelo atendimento". Destaca, ainda, que o próprio laudo de necrópsia atesta que a vítima apresentava "estado caquético", quando da realização do exame. "Assim, não se pode olvidar a possibilidade de que a conduta da acusada tenha ainda contribuído ou acelerado o evento morte, ao submet√™-lo a tamanho esforço físico, no momento em que necessitava de cuidados". A respeito das circunstâncias que envolveram a morte do idoso, o MPRJ informa que a autoridade policial instaurou procedimento para apurar eventual crime de homicídio envolvendo a denunciada.

Delegado aponta "omissão de socorro"
Um despacho feito pelo delegado Fabio Luiz Souza, titular da 34¬™ DP (Bangu), respons√°vel pelas investigações, e divulgado pela TV Globo, aponta uma "gritante omissão de socorro" por parte de Érika. Segundo o delegado, Paulo estava em "situação gritante de perigo de vida":

"Considerando que no dia 16/4/2024, certamente percebendo que Paulo estava em situação gritante de perigo de vida, o que pode ser vislumbrado pelas declarações de todas as testemunhas que tiveram contato com a vítima, ao invés de ir novamente ao hospital ela se dirigiu ao shopping, configurando uma gritante omissão de socorro, determino; proceda-se a novo registro de ocorr√™ncia para apurar o delito de homicídio culposo", escreveu.

A 34¬™ DP desmembrou a investigação do caso. A primeira fase do inquérito, que se refere à prisão em flagrante de Érika, foi concluída na terça-feira. Após a segunda fase, que investigar√° o homicídio culposo, a polícia definir√° se a sobrinha do idoso ser√° indiciada pelos crimes.

Segundo a Polícia Civil, como cuidadora do idoso, "a sobrinha, ao ver que ele não estava bem, deveria ter levado o tio ao hospital, e não a uma ag√™ncia banc√°ria".

Relembre o caso
Imagens obtidas pelo GLOBO mostram a Érika transitando por um shopping em Bangu, na Zona Oeste do Rio, com o idoso em uma cadeira de rodas no dia em que levou o cad√°ver da vítima para uma ag√™ncia bancaria para fazer um empréstimo na mesma região.

Imagens de câmeras de segurança de um estacionamento divulgadas pelo Balanço Geral, da TV Record, mostram que a mulher em um estacionamento em um carro cinza, às 13h03 de terça-feira. Um homem segura a cadeira de rodas enquanto ela tenta encontrar um jeito de retirar o idoso de dentro do carro. Ela puxa o corpo do idoso para frente e o segura por tr√°s. A cabeça dele mexe um pouco e, em seguida, ela o coloca na cadeira, com ajuda do homem. As pernas do idoso ficam esticadas, e a mulher ajeita em cima do apoio para os pés. A ação durou 27 segundos.

Depois disso, a mulher pega a bolsa em cima do carro e o homem fecha a porta do carona. Ela segue com ele. A polícia analisa as imagens para saber se ela andou com ele por mais locais até chegar ao banco.

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Todo o passeio dela teria acontecido antes de o cad√°ver do idoso ser levado ao banco, para um empréstimo. Um dos funcion√°rios do Serviço de Atendimento Móvel de Urg√™ncia (Samu) que realizou o atendimento na ag√™ncia banc√°ria, afirmou à polícia que Paulo Roberto estava morto havia pelo menos duas horas.

Segundo o depoimento do funcion√°rio do Samu, o período do óbito foi constatado porque o corpo de Paulo Roberto Braga, de 68 anos, j√° apresentava livores — manchas escuras que correspondem às zonas de falta ou de acumulação de sangue —, que costumam aparecer após esse tempo.

Também em depoimento, uma das funcion√°rias da ag√™ncia banc√°ria contou que, num primeiro momento, achou o idoso muito debilitado. Ao se aproximar do local onde ocorria o atendimento, orientou que a assinatura de Paulo Roberto deveria ser igual à da carteira de identidade. No momento em que o idoso deveria assinar, porém, a funcion√°ria afirma que ele não respondia e estava com aspecto p√°lido e sem apresentar sinais vitais.

Foi quando Érika, de acordo com o relato da funcion√°ria, acordar e colocar uma caneta na mão de Paulo Roberto, levando a mão do idoso até a mesa. A funcion√°ria afirmou que isso tudo aconteceu mesmo com o idoso estando claramente desacordado.

Registro em vídeo
Érika chegou com Paulo Roberto ao banco num carro de aplicativo. A polícia tenta localizar esse motorista. À polícia, a mulher afirmou que era prima do idoso — os investigadores confirmam um grau de parentesco, mas alegam que os registros indicam que ela era prima do homem — e cuidadora dele.

A tentativa de Érika fazer com que Paulo Roberto assinasse a documentação para o saque de R$ 17 mil de um empréstimo foi registrada em vídeo. Nas imagens, é possível perceber que a mulher segura a cabeça de Paulo Roberto e diz: "Assina para não me dar mais dor de cabeça, ter que ir no cartório. Eu não aguento mais".

Enquanto isso, os funcion√°rios do banco salientam que algo de errado est√° acontecendo com o idoso. "Eu acho que ele não est√° legal, não est√° bem, não", diz uma atendente.

Érika continua: "Tio Paulo precisa assinar. Se o senhor não assinar, não tem como. Eu não posso assinar pelo senhor, o que eu posso fazer, eu faço. Igual ao documento aqui: Paulo Roberto Braga. O senhor segura (a caneta). O senhor segura forte para caramba a cadeira aí. Ele não segurou ali a porta?", diz Érika na imagem gravada pelos funcion√°rios.

O corpo de Paulo Roberto foi levado para o Instituto Médico-Legal (IML), onde passar√° por exames para constatar a causa da morte. Érika foi autuada por vilip√™ndio de cad√°ver e furto mediante fraude.

Fonte: Por Agência O Globo

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